O Batismo do Senhor e a Revelação Trinitária.
- Fernando San Gregorio

- 30 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Notas de Teologia¹

O Batismo do Senhor e a Revelação Trinitária
O batismo de nosso Senhor Jesus Cristo constitui um momento ímpar no Novo Testamento, pois nele se manifesta de forma clara e simultânea a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, oferecendo um fundamento bíblico decisivo para aquilo que a tradição cristã passou a denominar doutrina da Trindade.
1. O Batismo de Jesus no Contexto Bíblico-Salvífico
O batismo de Jesus não deve ser compreendido como um rito de arrependimento pessoal, mas como um gesto de identificação solidária com a humanidade pecadora e, ao mesmo tempo, uma atitude de plena obediência ao plano redentor do Pai². Ao descer às águas do Jordão, Cristo assume simbolicamente a condição humana marcada pelo pecado, antecipando sua obra vicária que culminará na cruz.
Os Evangelhos registram que, nesse evento, ocorre uma manifestação trinitária explícita:
O Filho está nas águas do Jordão;
O Espírito Santo desce sobre Ele em forma corpórea, como pomba;
O Pai, por meio de uma voz audível dos céus, proclama: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.
Essa cena revela não apenas a identidade messiânica de Jesus, mas também a distinção pessoal e a unidade relacional no próprio ser de Deus.
2. A Formulação Sistemática da Doutrina da Trindade
A teologia cristã afirma que Deus é uma única essência (ousia) que subsiste eternamente em três pessoas distintas (hipóstases): Pai, Filho e Espírito Santo. Trata-se, portanto, de uma unidade composta e dinâmica, não no sentido de divisão, mas de comunhão perfeita e eterna.
A Trindade não implica a existência de três deuses, mas a confissão de um único Deus em três pessoas, coiguais, coeternas e consubstanciais. Cada pessoa é plenamente Deus, partilhando da mesma essência divina, ainda que se distinga nas relações pessoais e nas missões históricas.
3. Indícios Trinitários no Antigo Testamento
Embora a plena revelação da Trindade ocorra no Novo Testamento, o Antigo Testamento já aponta para uma pluralidade dentro da unidade divina. Um exemplo recorrente é o uso do nome hebraico Elohim, plural de Eloah, empregado para designar o Deus de Israel. Embora não constitua uma formulação trinitária explícita, esse dado linguístico, aliado a outros textos (como Gn 1.26; Is 6.8), prepara o terreno para a revelação posterior.
Assim, a fé cristã entende que o Novo Testamento não introduz um novo Deus, mas revela mais plenamente quem sempre foi o Deus de Israel.
4. O Desenvolvimento Histórico da Doutrina
A formulação dogmática da doutrina da Trindade ocorreu de maneira progressiva ao longo da história da Igreja, especialmente nos primeiros séculos. No Concílio de Niceia (325), a Igreja afirmou que o Filho é “da mesma substância do Pai” (homoousios), rejeitando o arianismo, que negava a plena divindade do Filho.
Posteriormente, o Concílio de Constantinopla (381) reafirmou Niceia e declarou explicitamente a divindade do Espírito Santo, consolidando a confissão trinitária clássica.
Nesse processo, a Igreja precisou responder a diversas heresias, tais como:
Triteísmo, que fragmentava a unidade divina em três deuses;
Unitarismo e unicismo, que negavam a distinção pessoal em Deus;
Modalismo, que reduzia Pai, Filho e Espírito a meras manifestações temporais.
A ortodoxia cristã rejeitou esses desvios ao manter, simultaneamente, a unidade da essência divina e a distinção real das pessoas.
5. Confissão Final da Fé Trinitária
Em fidelidade às Escrituras e à tradição apostólica, a fé cristã afirma:
Há um só Deus, que subsiste eternamente em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O batismo de Jesus, portanto, não é apenas um evento histórico da vida de Cristo, mas uma epifania trinitária, na qual Deus se revela como comunhão eterna de amor, fundamento último da redenção e da vida cristã.
² BAPTISTA, Douglas. A Santíssima Trindade. Rio de Janeiro: CPAD, 2025.
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