Antropologia bíblica, santificação e esperança escatológica
- Fernando San Gregorio

- 23 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

Na antropologia bíblica, a ênfase na santificação está intrinsecamente ligada à sua esperança escatológica. A santificação não se limita ao aperfeiçoamento moral dentro dos limites da vida terrena, mas se orienta decisivamente para a vinda de Cristo e para a consumação final da história. Essa perspectiva amplia e transcende a existência histórica, situando a vida humana numa tensão entre a realidade presente da redenção e sua plenitude futura na vida eterna.
Sob essa ótica escatológica, a antropologia bíblica destaca o caráter transcendente e unitário do ser humano, compreendido como corpo, alma e espírito, não como partes independentes, mas como dimensões integradas de uma única realidade pessoal. Tal unidade possui um caráter teleológico, pois o ser humano é criado e redimido em vista de uma plenitude futura, na qual toda a sua existência será plenamente restaurada e glorificada.
A esperança cristã culmina na doutrina do corpo glorificado, incorruptível e plenamente redimido. Esse corpo não é um acréscimo estranho à antropologia bíblica, mas o seu fim expositivo, isto é, a expressão final de sua compreensão do homem. Trata-se de um corpo reunido novamente à sua alma, transformado pela ação de Deus, cheio de fulgor e vida, à semelhança do Filho. Tal semelhança, contudo, não ocorre em natureza ou glória essencial, mas segundo a espécie humana, elevada à perfeição que lhe é própria, agora plenamente manifestada e aprofundada pelo relacionamento redentor com Cristo.
Por essa razão, a antropologia bíblica, especialmente em sua formulação mais madura, é profundamente revelacional: ela fala tanto da origem quanto do fim do ser humano à luz da ação de Deus na história. O homem só pode ser compreendido adequadamente quando considerado a partir da criação, da queda, da redenção e da consumação. Fora desse horizonte, a pergunta pelo sentido último da vida humana permanece fragmentada ou incompleta.
Nessa cosmovisão, o ser humano busca compreender o sentido da vida não apenas “dentro” do mundo, mas, de certo modo, “fora” dele, isto é, numa dimensão que ultrapassa o meramente terreno — ainda que o inclua e o valorize. A vida presente é absorvida e superada pela imitação de Cristo, conforme ensina o apóstolo Paulo, até que alcancemos “a estatura completa de Cristo”. Assim, a existência cristã é orientada por um modelo escatológico: Cristo glorificado é o paradigma do destino humano.
Finalmente, essa antropologia, em seu caráter prático, culmina numa vida santa. A santificação não é parcial nem restrita a uma dimensão da pessoa, mas integral. Como afirma o apóstolo em Tessalonicenses, todo o ser humano — espírito, alma e corpo — deve ser preservado irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. A graça divina, portanto, não apenas perdoa, mas cria as condições necessárias para esse fim, operando no homem uma transformação progressiva que antecipa, no presente, a realidade da glória futura.
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